Desde o final de 2025, uma reforma orçamentária está em vigor na rede de ensino francês no exterior. Ao reduzir seu orçamento e transferir mais despesas para os estabelecimentos locais, ela coloca em risco o acesso a esse serviço público essencial para muitas famílias. Explicamos tudo aqui.
Para saber mais, assista ao nosso webinar de 1º de abril de 2026 (veja abaixo) com o senador Yan Chantrel, Christophe Chouteau (professor do Lycée Molière, sindicalizado à FSU/SNES) e Mélanie Montinard, membro do conselho de administração do Lycée Français International do Rio de Janeiro (Lycée Molière) e do conselho de administração da AEFE.
O que é a AEFE?
A AEFE (Agência para o Ensino Francês no Exterior) é um órgão público francês responsável por coordenar, apoiar e desenvolver a rede de estabelecimentos escolares franceses no mundo. Sua principal missão é garantir um ensino conforme os programas da Educação Nacional, contribuindo ao mesmo tempo para a difusão da língua e da cultura francesas no mundo.
Essa rede, com mais de 600 estabelecimentos em 138 países, acolhe cerca de 398 mil alunos franceses residentes no exterior e de outras nacionalidades, promovendo a abertura internacional e o diálogo intercultural.
O direito à educação à francesa hoje fragilizado
Para os franceses que vivem no exterior, a educação não é um serviço acessório: é um direito fundamental e um vínculo essencial com a República. Ela garante o acesso à língua, à cultura e aos valores franceses, assegurando a igualdade de oportunidades, independentemente do local de residência.
No entanto, esse direito está hoje fragilizado.
A educação é uma missão essencial do serviço público e, como tal, deveria ser protegida, reforçada e tornada acessível a todos, em condições dignas, tanto para os alunos quanto para os profissionais da educação. No entanto, as escolhas políticas atuais seguem na direção oposta.
A reforma da AEFE, conduzida pelo governo, insere-se em uma lógica preocupante: retirada progressiva do Estado, aumento da pressão financeira sobre as famílias e maior tensão sobre os estabelecimentos e suas equipes pedagógicas.
Essa não é uma reforma isolada. Ela prolonga uma série de decisões que já enfraqueceram a rede de ensino francês no exterior, reduzindo sua acessibilidade e degradando as condições de aprendizagem. Por trás dessas escolhas, surge uma questão central: ainda queremos garantir um verdadeiro serviço público de educação para os franceses no exterior ou aceitar que ele se torne progressivamente um sistema desigual, reservado a quem pode pagar?
Por isso, é urgente discutir esse tema.
O que é a reforma da AEFE?
A reforma da AEFE, aprovada pelo seu conselho de administração em 18 de dezembro de 2025, visa reestruturar seu modelo orçamentário em um contexto de restrições financeiras.
Principais pontos da reforma:
- Redução orçamentária: diminuição da massa salarial e reorganização do funcionamento da agência.
- Novo equilíbrio financeiro: os estabelecimentos são chamados a aumentar sua contribuição financeira à AEFE, especialmente para pagar as contribuições sociais dos professores da rede, o que pode levar a um aumento das mensalidades escolares.
Essa reforma ocorre após um período de tensões orçamentárias e, por trás desse argumento, esconde-se na verdade uma retirada progressiva do Estado e uma transferência de encargos para os estabelecimentos e as famílias.
Falar em manter a excelência enquanto se reduzem os recursos é uma grande contradição. Não se pode exigir mais qualidade com menos meios, nem preservar um serviço público enfraquecendo-o.
As consequências da reforma da AEFE
A reforma (2025-2026) provoca um aumento das mensalidades (cerca de 4% em nível mundial, podendo chegar a +10% no Lycée Molière do Rio, sem contar a inflação) e uma maior pressão financeira sobre os estabelecimentos devido à transferência de encargos (aposentadorias).
Essas medidas, destinadas a cobrir um déficit, fragilizam o modelo econômico, aumentam o risco de desvinculação de escolas da rede AEFE e geram um sentimento de abandono entre as famílias.
Principais consequências:
- Aumento das mensalidades: as famílias passam a arcar com custos mais elevados.
- Transferência de encargos: os estabelecimentos assumem uma parte crescente das pensões dos profissionais destacados (+35% a partir de 01/07/2026 e +50% a partir de 01/01/2027).
- Risco de desvinculação: algumas escolas podem deixar de ser conveniadas com a AEFE.
- Tensões no recrutamento: redução de profissionais destacados e maior uso de contratos locais.
Apesar de objetivos como transparência e qualidade, a implementação rápida da reforma gera forte preocupação na rede.
Contra a reforma da AEFE: o que defendemos
Para nós, o ensino francês no exterior é um pilar do serviço público e uma ferramenta estratégica para a França. Não pode ser sacrificado por lógicas orçamentárias de curto prazo. Manifestamos nossa solidariedade com os professores em greve desde março.
- Um serviço público de educação assumido pelo Estado
Recusamos a retirada do Estado e a transferência de responsabilidades para famílias e escolas. - Financiamento adequado aos desafios
Defendemos investimentos ambiciosos. Não é um custo, mas um investimento estratégico. - Acessibilidade e diversidade social
Recusamos o aumento contínuo das mensalidades (quase +45% em 10 anos). Defendemos um modelo acessível a todos. - Uma governança pública forte da AEFE
Defendemos uma rede baseada na cooperação, não em lógicas de mercado. - Uma ferramenta estratégica de diplomacia
A rede AEFE forma gerações e fortalece os laços entre a França e o mundo. - Valorização dos profissionais
Defendemos condições de trabalho dignas e reconhecimento salarial justo. - Um vínculo forte com a Educação Nacional
Essencial para garantir qualidade e coerência pedagógica.
Em resumo
Recusamos a transformação do ensino francês no exterior em um sistema desigual, fragilizado e regido pelo mercado. Defendemos um modelo público, solidário e ambicioso, à altura de sua importância educativa, social e estratégica para a França.
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