A rede da AEFE (Agência para o ensino francês no exterior) criou em 2016 a OBEP (Observatório para os alunos com necessidades educacionais especiais), uma instância que visa aprimorar a inclusão escolar e o acompanhamento dos estudantes especiais ou em grande dificuldade. Embora possam ser destacados alguns avanços, a realidade continua adversa. Através do depoimento da nossa Conselheira Mélanie Montinard, membro do OBEP, ela própria mãe de uma criança neuroatípica, queremos apresentar as nossas propostas para tornar a rede de ensino do francês no exterior inclusiva para valer.
Pontos chaves sobre o OBEP/AEFE:
- Objetivo: Promover uma escola inclusiva, compartilhar as boas práticas, padronizar os dispositivos de acompanhamento (como os(as) AESH, Acompanhantes de estudantes em situação de deficiência) e identificar/analisar as necessidades em campo.
- Composição: Reúne representantes da AEFE, da Missão Laica Francesa (MLF), das associações de pais de alunos, dos sindicatos, dos representantes eleitos (entre os quais a sua, Mélanie Montinard) e dos parlamentares.
- Funcionamento: A instância se reúne 2 a 3 vezes ao ano, via de regra após o Conselho de Administração da AEFE, e embasa seus trabalhos numa pesquisa anual desenvolvida nas unidades de ensino.
- Públicos alvos:Crianças especiais (do ponto de vista físico, sensorial, mental), crianças doentes ou estudantes com grande dificuldade de aprendizado.
O OBEP é a ferramenta estratégica da AEFE para garantir que a rede francesa no exterior acolha da melhor maneira todos os alunos, em especial aqueles que requerem atenção específica.
10 anos depois, alguns dados do OBEP … de acordo com a AEFE
De acordo com a AEFE, o Observatório dos estudantes com necessidades educacionais específicas (OBEP) é hoje uma ferramenta estruturante e em desenvolvimento para orientar a escola inclusiva em toda a rede.
Alguns dados:
– A inclusão em alta
Hoje, 11% dos estudantes da rede possuem necessidades educacionais específicas, sendo 3.200 crianças especiais. Esse número está em ascensão, indicando que a inclusão se tornou uma realidade mais visível e assumida.
– Recursos humanos aumentando, porém ainda limitados.
São mais de 2.500 acompanhantes (AESH), em parte financiados pela AEFE. Isso indica um esforço, embora ainda não seja possível acompanhar todas as crianças.
– Uma estruturação da governança da escola inclusiva
A AEFE implantou uma rede de 16 referentes de “escola inclusiva” por área, visando acompanhar melhor as unidades de ensino, divulgar as boas práticas e estruturar os dispositivos locais.
– Um forte papel de coordenação e reflexão
O OBEP constitui-se num espaço de diálogo entre instituições, especialistas, docentes e famílias, cuja missão é apresentar propostas para aprimorar a inclusão em toda a rede.
– Uma dinâmica instalada, mas ainda em construção
Com seus 10 anos em 2026, o OBEP é visto como um dispositivo instalado, mas que ainda precisa enfrentar importantes desafios para tornar a escola plenamente inclusiva no mundo inteiro.
Este trabalho redundou em ações concretas, como a implantação de facilidades nos exames, capacitações para as AESH, o uso da IA para promover a acessibilidade ou a abertura de reflexões sobre a inclusão nas etapas de orientação pós-Bac.
De acordo com a AEFE, o OBEP está hoje em fase de incremento, com avanços reais (mais estudantes acompanhados, melhor modelagem, novas ferramentas), mas ainda com muito trabalho pela frente para garantir uma inclusão efetiva e equitativa em toda a rede.
A escola inclusiva hoje: o depoimento da sua representante, também mãe de criança neuroatípica.
Esse balanço, modesto, sobre a escola inclusiva na rede francesa de ensino no exterior, gera um sentimento persistente: existe um hiato profundo entre os discursos institucionais e a realidade em campo.
Durante as reuniões do OBEP, as respostas apresentadas enfatizam as capacitações. Embora fundamentais, elas sozinhas não atendem as necessidades imediatas dos estudantes e das famílias. Hoje, a urgência é outra: é o acompanhamento concreto, a organização, os recursos humanos e a própria modelagem da inclusão.
Em campo, no exterior, as dificuldades são recorrentes. Cada volta às aulas traz à tona o mesmo balanço: falta de protocolos objetivos, falta de procedimentos padronizados, transmissão aleatória das informações, sensibilização insuficiente das equipes pedagógicas. A inclusão ainda se sustenta muito em iniciativas individuais, mais do que em um sistema estruturado e compartilhado.
É verdade que ferramentas existem. Na França, a caderneta de currículo inclusivo (para saber mais sobre esse link) representa um notável avanço. Mas a sua ausência na rede da AEFE levanta interrogações. A implementação é mencionada como um projeto “em estudo”, que requer mais tempo. Entretanto, para os alunos em questão, o tempo é um dado imediato. As necessidades não podem ser postergadas.
O meu depoimento também é o de uma mãe de criança neuroatípica. O meu filho, que tem um transtorno do espectro autista, ingressou na escola há dois anos. Apesar de termos feitos os trâmites com bastante antecipação e a despeito das informações várias vezes enviadas e das reuniões, até hoje os professores não foram treinados e os dispositivos, embora necessários, só saíram do papel após decisão judicial.
Tal situação ilustra uma realidade mais ampla: quando o transtorno é (in)visível, muitas vezes as necessidades são minimizadas. As famílias precisam sempre explicar, justificar, insistir, às vezes até o esgotamento.
Outro ponto cego diz respeito aos(às) acompanhantes de crianças especiais (AESH). No exterior, a sua contratação fica muitas vezes a cargo das próprias famílias, que devem procurar, empregar e pagar esses profissionais. Isso acaba gerando situações precárias, com mão-de-obra pouco treinada, muitas vezes temporária e dificilmente integrada na proposta pedagógica da escola.
Embora existam dispositivos de auxílio, ainda são de difícil acesso, em especial, por conta dos trâmites administrativos relacionados ao reconhecimento do transtorno na França. Para algumas famílias, sobremaneira aquelas afastadas do sistema administrativo francês, esses processos se constituem num grande entrave.
Além dos recursos, também é uma questão organizacional. No sistema francês, o papel de professor(a) referente é central para coordenar os currículos, organizar o acompanhamento fazer a articulação entre os diferentes agentes. Na rede no exterior, essa função estruturante faz falta. Consequentemente, a coordenação fica amplamente a cargo dos pais, sem garantia de um acompanhamento consistente e compartilhado.
Com isso, cabe a pergunta, fundamental: pode-se falar em escola inclusiva sem organização objetiva, sem governança identificada e sem responsabilidade compartilhada?
Capacitar os agentes é necessário. Mas capacitar sem estruturar, coordenar, definir os papéis, é construir em cima de bases frágeis. A inclusão não se sustenta apenas em intenções ou perspectivas. Exige respostas concretas, imediatas e adequadas às realidades do campo.
A questão excede as situações individuais. Questiona a nossa capacidade coletiva de garantir um direito fundamental: o direito a uma educação acessível para todas as crianças, quaisquer que sejam as suas necessidades.
Defendemos a real transformação do modelo: passar de uma inclusão pensada… a uma inclusão vivenciada.
Defendemos uma escola francesa no exterior verdadeiramente inclusiva, não apenas nas intenções, como também nos fatos. A inclusão não pode ser um objetivo proclamado ou um princípio teórico. Deve se materializar concretamente em cada unidade de ensino, cada turma, cada currículo. Receber todos os estudantes, quaisquer que sejam as suas necessidades, deve ser a realidade, não a exceção.
– O direito à escolarização adequada para cada criança
Defendemos uma escola capaz de atender as necessidades específicas de todos os estudantes (especiais, com transtornos do aprendizado, perfis atípicos), com dispositivos efetivos, conhecidos e operacionais já na volta às aulas.
– Um ambiente objetivo, estruturado e dirigido
A inclusão não se sustenta apenas na boa vontade das equipes ou das famílias.
defendemos:
- protocolos objetivos
- melhorar a transmissão das informações
- a nomeação de referentes dedicados
- uma verdadeira governança da inclusão na rede
– Recursos humanos à altura das necessidades
Defendemos:
- a contratação estruturada e profissionalizada dos(das) AESH
- a sua capacitação, e também a sua estabilidade e reconhecimento
- um atendimento que não fique a cargo apenas das famílias
– Uma capacitação útil, assentada na realidade.
É imprescindível treinar as equipes de docentes. Mas o treinamento deve ser:
- concreto
- acessível
- diretamente aplicável em sala de aula
- sustentado com recurso e acompanhamento
– Ferramentas adequadas à realidade no exterior
Recusamos uma escola inclusiva de duas velocidades.
As ferramentas existentes (diagnóstico, acompanhamento, currículo inclusivo) devem ser acessíveis em toda a rede, não apenas na França.
– O real acompanhamento das famílias
Defendemos um sistema mais compreensível, acessível e menos burocrático, em especial, para as famílias afastadas do sistema francês.
– Uma escola do bem-estar e do sucesso para todos
A inclusão não é só uma questão de acesso: também é uma questão de dignidade, bem-estar e sucesso. Uma escola inclusiva é uma escola que permite que cada criança encontre o seu lugar e vá pra frente.
Porque nenhuma criança deveria depender da capacidade dos seus pais para lutar pelo acesso aos seus direitos.
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