Por Maxime Thébault, filósofo, membro de Traits-d’Union
A extrema direita avança cada vez mais na França. Focando os mais vulneráveis, questionando os benefícios sociais e fomentando as divisões, ela acirra as desigualdades e fragiliza as conquistas que protegem os trabalhadores, os mais pobres e as minorias. Frente a essa ofensiva, há urgência em reafirmar os nossos compromissos com a justiça social, a ecologia e a proteção dos direitos. As francesas e os franceses do exterior têm um papel muito relevante a desempenhar para proteger esses valores. A dignidade não tem fronteiras.
No cenário político-midiático atual, a onipresença das narrativas da extrema-direita pode gerar angústia. Percebemos uma superepresentação da sua narrativa, até mesmo além dos habituais porta-vozes do Rassemblement National (RN). As políticas do Governo, alvejando cada vez mais duramente os imigrantes e os mais precários estão surfando nessa onda, desde a reforma do auxílio médico emergencial do Estado (AME), até o aumento do custo das matrículas para os estudantes estrangeiros, o Governo adotou o discurso da imigração enquanto maleza a ser estancada, sendo que se trata de uma riqueza que a França precisa acolher corretamente. No Parlamento europeu, a extrema direita e a direita recém votaram1 um texto que facilita a expulsão dos imigrantes e que lembra muito as medidas brutais2 adotadas pela polícia anti-imigração (ICE) nos Estados Unidos. A extrema-direita também é prejudicial para os direitos de todos aqueles que não se enquadram nas suas normas. Quer sejam as mulheres3, os direitos das pessoas LGBTQIA+4 ou os trabalhadores informais5, o RN insiste em votar contra qualquer proposta de lei que possa melhorar suas condições ou diminuir as desigualdades.
Por sua vez, parte da direita está acomodada hoje com uma aliança com a extrema direita, na indiferença geral. O racismo, a violência contra as minorias e a caça aos mais pobres se tornaram o cotidiano do nosso país. Da banalização das OQTFs (obrigação de sair do território francês), das violências policiais até a vigilância desenfreada6 e as ameaças contra parlamentares e prefeitos racializados7, o nosso país estão vivenciando uma preocupante guinada. A proposta de uma pequena reforma tributária como a chamada taxa Zucman provoca uma revolta absurda que só faz revelar quem controla a imprensa8: hoje, nove bilionários controlam mais de 80 % da mídia na França, e dá para perceber.
Esse cenário, assustador em muitos aspectos, não deve ofuscar a base teórica da extrema-direita, que, através dos seus mecanismos próprios, visa necessariamente dividir. O pensamento da extrema-direita promove a exclusão de parte da população. A sua existência se escora na necessidade de uma população a ser excluída do “nós, franceses brancos de raiz”. O seu reinado se estabelece quando é aniquilada a solidariedade e o vizinho se torna um suspeito. Hoje, seus alvos são os imigrantes e os seus descendentes racializados. Porém, pouco importa o alvo: apenas serve como bode expiatório para ocultar relações de dominação das quais se utiliza e se beneficia a extrema direita.
Frente a essa divisão, nós à esquerda pensamos que o problema das nossas sociedades contemporâneas não é a imigração, mas sim as desigualdades econômicas e políticas entre gêneros, raças, classes sociais e continentes. São todos esses elementos que geram hoje a pobreza, como também a inação frente ao aquecimento global. Nunca devemos perder o nosso rumo da luta contra todas essas formas de opressão. Combater a extrema direita, sempre é promover a solidariedade frente ao individualismo; o diálogo contra a violência e a discriminação; a tolerância e a valorização das diferenças contra o fechamento e a exclusão.
A extrema direita, e alguns membros do Governo atual, zombam do estado de direito. Querem implementar suas políticas xenófobas, de controle sobre a sociedade, redução dos direitos sociais e políticos, à revelia da Constituição e evitando o Congresso. A extrema direita, se um dia chegar ao poder, poderá trilhar o caminho já pavimentado nessa área pelos dois mandatos de Emanuel Macron que, ao maltratar a Constituição e enfraquecer os contrapoderes, violentou o nosso estado de direito e abriu a porta para derivas autoritárias.
Ao intensificar o uso do artigo 49.3 (que contorna o voto do Congresso,), ao demonizar parte da esquerda (os ecologistas seriam ecoterroristas e a France Insoumise, uns criminosos), o Governo atual está construindo uma estrada perigosa que poderia precipitar a nossa República em um autoritarismo de extrema direita.
Contra essa situação, não se pode desprezar o papel dos franceses e francesas do exterior. Melhor que qualquer um, sabemos da importância da acolhida em um país que não é o seu de origem, da mistura cultural para abrir o horizonte dos pensamentos, como também da importância da tolerância para poder progredir individual e coletivamente.
No Brasil, alguns experimentaram viver em um país onde governa a extrema direita. Sabem de toda a sua periculosidade, o seu autoritarismo, o seu poder de destruição e o perigo que pode representar para a preservação da vida, em especial dos mais carentes. Não devemos deixar de combater a extrema direita, e aqueles que a fomentam, estejam eles na França, nos Estados Unidos, na Argentina ou no Brasil. Nesta luta, cada espaço conta. Afirmar um poder de esquerda, é afirmar a recusa de tudo aquilo que fortalece a extrema direita. Lutar pelos nossos direitos sociais e políticos é lutar contra as dominações que pesam sobre nós e fomentam o ódio do outro.
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